quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Leitura de gestos.

Minha mãe faz aniversário!
Ela se tornou uma grande avó ao longo desses anos.
Seu amor contagiante convence até quem não gosta muito de gracinhas de crianças, que ser avó é mais divertido que se pensa.
Já vi de tudo nela: disposição para levar um e outro por aí, viajar, encarar Parque da Mônica com os quatro, achar choro de nenê gostoso e noites em claro engraçadas.
Não que não perca o humor às vezes,sim, é humana. Fala alto, é agitada, acha que domina qualquer assunto e ai daquele que duvidar. Seu esforço por viver bem é tão grande que faz com que consiga mesmo aprender o quiser. Ensina qualquer coisa e dá um jeito em qualquer situação.
E vem aprendendo muito com os netos. Vem colecionando embaraços, risos e choros de sono, brigas por doces, agradecimentos por ter uma vida parecida com um parque de diversões e abraços por ajudar na coleção de tampinhas.

Talvez não se lembre, mas há um embaraço gostoso de contar...

A Juliana tinha uns 3 anos quando meu pai entrou em casa, pela porta da cozinha, com uma aparência arrasada. Estava triste de verdade e, talvez, a Ju não tinha ainda entendido que o vovô também ficava triste às vezes.
Minha mãe, provavelmente, fazia umas três coisas ao mesmo tempo, enquanto observava a Ju brincar. Percebeu que ela acompanhou o avô com o olhar.
Ele colocou as chaves e a carteira na mesa e disse:

- Lúcia,tô chateado... Você não vai acreditar, mas morreu o Seu Zé... (não em lembro se era mesmo este o nome da pessoa, mas tudo bem...)

Minha mãe é emotiva, intensa e se envolve com o sofrimento dos outros.

- MEU DEUS ALCIRRRRR!!! MORREU DE QUÊ? COMO ASSIM? COITADO!!!

- Uai! - respondeu meu pai - morreu de tanto... (e fez com a mão direita aquele sinal de quando a pessoa enche a cara no boteco da esquina. Talvez quisesse evitar as palavras na presença da Juliana.)

- Nossa, coitada da mulher dele! - não se conformava minha mãe.

Um pouco mais tarde, minha mãe se vestiu e arrumou a Ju toda bonitinha pra visitar a viúva do morto que já havia ido há mais de uma semana.
Desceu a rua com a Juliana e foi forçada a fazer uma visita mais rápido que o esperado.

- Dona Eulália (também não sei se é este o nome dela), meus pêsames... Nossa, ficamos tão chateados, tão tristes com a notícia! Puxa vida, nos desculpe! Ficamos sabendo só hoje! Puxa vida, podíamos ter ido... que coisa...

- Eu entendo... -respondeu a viúva.

- Mas, Dona Eulália, foi tão de repente! O que aconteceu? Como foi que ele faleceu? Meu Deus, que pena!

E nessa hora, minha mãe se pudesse evaporava. A Ju relembrou a leitura do gesto do avó na cozinha, oras!

- Você sabe vó! Foi de beber a pinga, né?!

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