Minha mãe faz aniversário!
Ela se tornou uma grande avó ao longo desses anos.
Seu amor contagiante convence até quem não gosta muito de gracinhas de crianças, que ser avó é mais divertido que se pensa.
Já vi de tudo nela: disposição para levar um e outro por aí, viajar, encarar Parque da Mônica com os quatro, achar choro de nenê gostoso e noites em claro engraçadas.
Não que não perca o humor às vezes,sim, é humana. Fala alto, é agitada, acha que domina qualquer assunto e ai daquele que duvidar. Seu esforço por viver bem é tão grande que faz com que consiga mesmo aprender o quiser. Ensina qualquer coisa e dá um jeito em qualquer situação.
E vem aprendendo muito com os netos. Vem colecionando embaraços, risos e choros de sono, brigas por doces, agradecimentos por ter uma vida parecida com um parque de diversões e abraços por ajudar na coleção de tampinhas.
Talvez não se lembre, mas há um embaraço gostoso de contar...
A Juliana tinha uns 3 anos quando meu pai entrou em casa, pela porta da cozinha, com uma aparência arrasada. Estava triste de verdade e, talvez, a Ju não tinha ainda entendido que o vovô também ficava triste às vezes.
Minha mãe, provavelmente, fazia umas três coisas ao mesmo tempo, enquanto observava a Ju brincar. Percebeu que ela acompanhou o avô com o olhar.
Ele colocou as chaves e a carteira na mesa e disse:
- Lúcia,tô chateado... Você não vai acreditar, mas morreu o Seu Zé... (não em lembro se era mesmo este o nome da pessoa, mas tudo bem...)
Minha mãe é emotiva, intensa e se envolve com o sofrimento dos outros.
- MEU DEUS ALCIRRRRR!!! MORREU DE QUÊ? COMO ASSIM? COITADO!!!
- Uai! - respondeu meu pai - morreu de tanto... (e fez com a mão direita aquele sinal de quando a pessoa enche a cara no boteco da esquina. Talvez quisesse evitar as palavras na presença da Juliana.)
- Nossa, coitada da mulher dele! - não se conformava minha mãe.
Um pouco mais tarde, minha mãe se vestiu e arrumou a Ju toda bonitinha pra visitar a viúva do morto que já havia ido há mais de uma semana.
Desceu a rua com a Juliana e foi forçada a fazer uma visita mais rápido que o esperado.
- Dona Eulália (também não sei se é este o nome dela), meus pêsames... Nossa, ficamos tão chateados, tão tristes com a notícia! Puxa vida, nos desculpe! Ficamos sabendo só hoje! Puxa vida, podíamos ter ido... que coisa...
- Eu entendo... -respondeu a viúva.
- Mas, Dona Eulália, foi tão de repente! O que aconteceu? Como foi que ele faleceu? Meu Deus, que pena!
E nessa hora, minha mãe se pudesse evaporava. A Ju relembrou a leitura do gesto do avó na cozinha, oras!
- Você sabe vó! Foi de beber a pinga, né?!


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