Filhos dão trabalho, isto é fato e ninguém discute.
É irritante quando a gente conversa com alguém que diz:
- Ah, minha filha não! Ela dorme a noite inteira, não faz bagunça, não responde, não briga com o irmãozinho.
Deve ser um robozinho. Não é possível!
Posso jurar que com toda a experiência didática da pedagogia, das leituras sobre comportamentos e relações interpessoais, não há receita para acabar com o stress em se educar crianças. Antes houvesse receita! Seria tudo tãããooo mais fácil!
Educar é uma constante repetição e um desafio interminável. A gente sabe que é o "modelo", mas a rotina nos faz esquecer de falar muita coisa com calma, de selecionar os programas de TV e de controlar a raiva e não dizer palavrões.
Todos os dias compostos de inúmeros horários e obrigações.
Mas, de vez em quando, acontecem coisas que resgatam a felicidade da vida rotineira em família.
Estávamos terminando um trabalho de escola, eu e a Juliana, enquanto a Gabriela e a Vitória enrolavam para subir e irem dormir.
TV ligada, elas a mil e eu achando que a noite não iria mais terminar.
Eis que a "Novela das Oito" (que agora é "Das Nove") começou e lógico, a Gabriela e a irmã grudaram os olhos na tela.
Não costumo deixá-las ver a novela na semana porque acordamos cedo demais para irmos pra escola. De vez em quando, elas assistem e como toda crianças desta geração, sabem o nome dos personagens melhor que nós adultos.
A primeira cena da novela era numa danceteria.
Duas mulheres dançavam insinuantemente uma para a outra, se tocando e quase se beijando.
Não tinha percebido que as meninas estavam acompanhando.
Minha filha mais velha, no ato me despertou:
-Mãe, desliga a TV! Isto não dá pra elas verem!
Na procura pelo controle remoto em meio as almofadas, a Gabriela ligeira:
-Como é mesmo o nome dessas mulheres que gostam uma da outra? Como é mesmo?...
A Ju fazia que não estava ouvindo tentando desligar a TV sem controle mesmo.
No ato da pergunta, a Vitória, do alto dos seus 4 anos, responde com segurança e sem medo de errar a palavra:
-É "lerdas", burra!
(Tomou uma bronca por chamar a irmã de burra, lógico.)
Não entendeu o nosso riso saboreando a sua inocência. Não precisava corrigi-la, ela já tinha dominado o conceito; as pessoas podem gostar de maneira diferente da nossa.
E mais que tudo: entendeu que é experimentando a linguagem que vai saber de todas as palavras do mundo.

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